Quando a mãe está apenas na mente: estudo revela que a simples crença da presença materna sincroniza cérebros infantis
Pesquisa com EEG mostra que crianças de 3 e 4 anos apresentam maior sincronização neural e respostas mais rápidas quando acreditam estar interagindo com suas mães — mesmo quando a parceira real é uma desconhecida

Imagem: Reprodução
Uma das ideias mais influentes da psicologia do desenvolvimento acaba de ganhar uma evidência neurocientífica inédita. Um estudo conduzido por pesquisadores da Shanghai Jiao Tong University e do Shanghai Children's Medical Center demonstra que a representação mental da mãe — e não apenas sua presença física — é capaz de alterar o funcionamento do cérebro infantil durante interações sociais.
Publicado nesta terça-feira (2), no manuscrito científico Who Is in Mind Matters: Attachment Representations in Early Childhood Synchronize Child-Adult Interacting Brains, o trabalho foi liderado por Ruxin Su, Jiayang Xu, Yunting Zhang, Xiaoli Guo e Fan Jiang. A pesquisa investigou um fenômeno central da teoria do apego: a capacidade das crianças de manter internamente uma sensação de segurança associada à figura materna, mesmo quando ela não está presente fisicamente.
Para isso, os cientistas criaram um experimento inovador envolvendo 40 tríades compostas por criança, mãe e uma mulher desconhecida. O objetivo era separar, pela primeira vez, os efeitos da presença real da mãe dos efeitos da crença de que ela estava presente.
Um cérebro que responde à ideia da mãe
A teoria do apego, desenvolvida por John Bowlby na década de 1960, propõe que as experiências repetidas com os cuidadores formam modelos mentais internos que ajudam a criança a interpretar o mundo e regular emoções. Contudo, esses modelos sempre foram difíceis de observar diretamente.
A equipe chinesa utilizou uma tecnologia conhecida como EEG hyperscanning, que registra simultaneamente a atividade elétrica cerebral de duas pessoas. O foco estava na chamada sincronização inter cerebral — fenômeno em que padrões neurais de indivíduos interagindo tornam-se coordenados.
As crianças, com idade média de 3,65 anos, participavam de uma tarefa cooperativa de montagem de quebra-cabeças tangram. Em algumas situações, elas eram corretamente informadas sobre quem era sua parceira; em outras, eram levadas a acreditar que estavam trabalhando com a mãe quando, na realidade, colaboravam com uma desconhecida, ou vice-versa.
O resultado surpreendeu os pesquisadores.
Independentemente de quem estivesse realmente do outro lado da tarefa, a simples crença de que a parceira era a mãe aumentou significativamente a sincronização neural entre os participantes.
Atenção mais rápida e cérebros mais conectados
Os efeitos não ficaram restritos aos sinais cerebrais.
Quando acreditavam estar cooperando com suas mães, as crianças reagiam mais rapidamente às ações da parceira. O tempo médio de resposta caiu de aproximadamente 1,48 segundo para 1,25 segundo quando a parceira real era a mãe, e de 1,46 segundo para 1,33 segundo quando a parceira real era uma desconhecida.
Segundo os autores, essa aceleração sugere um aumento da atenção e do engajamento motivacional provocado pela ativação da representação mental materna.
“Quando o estado interno de ‘estar com a mamãe’ era simbolicamente ativado, o cérebro da criança mudava para um modo distinto de coordenação neural”, afirmam os pesquisadores na discussão do estudo.
A análise estatística revelou um efeito robusto: a crença sobre quem era a parceira explicou grande parte da variação observada na sincronização cerebral (n² parcial = 0,427), um tamanho de efeito considerado elevado em pesquisas comportamentais e neurocientíficas.
A região cerebral associada ao apego
Outro achado importante surgiu da análise regional da atividade cerebral.
Os cientistas identificaram que boa parte do efeito estava concentrada no eletrodo P4, localizado sobre a região temporoparietal direita do cérebro, uma área frequentemente associada ao processamento social, à empatia e à compreensão dos estados mentais de outras pessoas.
As conexões neurais relacionadas a esse ponto cerebral mostraram correlação positiva com os níveis de apego seguro das crianças (p = 0,405; p = 0,019). Também se correlacionaram com a melhora no tempo de resposta observada quando as crianças acreditavam estar trabalhando com suas mães.
Para os autores, esse resultado sugere que o apego não é apenas uma memória emocional abstrata, mas um mecanismo ativo que reorganiza redes neurais durante interações sociais em tempo real.

Um dos maiores desafios da teoria do apego sempre foi transformar conceitos psicológicos abstratos em medidas objetivas.
Segundo os pesquisadores, a descoberta oferece justamente essa possibilidade.
“O trabalho fornece uma estrutura operacional e empiricamente testável para investigar as assinaturas neurobiológicas duradouras das representações de apego”, escrevem os autores.
A pesquisa também ajuda a explicar por que crianças conseguem manter sensação de segurança e estabilidade emocional mesmo quando estão temporariamente separadas dos pais. A mera ativação mental da figura de apego parece funcionar como um recurso psicológico capaz de sustentar atenção, cooperação e regulação emocional.
Impacto para educação e saúde infantil
Especialistas em desenvolvimento infantil veem implicações importantes para ambientes como creches, escolas e hospitais.
Os resultados sugerem que símbolos, imagens, lembranças ou referências à mãe podem ter efeitos neuropsicológicos mensuráveis sobre o comportamento infantil em situações de separação. Isso pode ser particularmente relevante para crianças submetidas a hospitalizações, processos de adaptação escolar ou contextos de estresse emocional.
Embora os autores reconheçam limitações — incluindo o fato de a amostra ser composta predominantemente por crianças com apego seguro e famílias de alto nível socioeconômico — o estudo representa um marco metodológico para a neurociência do desenvolvimento.
Mais do que demonstrar que mães e filhos possuem cérebros sincronizados, a pesquisa mostra algo ainda mais profundo: para uma criança pequena, a ideia da mãe pode ser suficiente para colocar o cérebro em sintonia social.
E essa sintonia, agora, deixou de ser apenas uma hipótese psicológica para tornar-se um fenômeno observável nos circuitos neurais da infância.
Referência
Quem está na mente importa: Representações de apego na primeira infância sincronizam os cérebros que interagem entre criança e adulto. Ruxin Su , Jiayang Xu , Saishuang Wu , Haiwa Wang , Yamin Li , Zihan Yang , Yuqi Liu , Jieqiong Liu , Shanbao Tong , Yunting Zhang , Xiaoli Guo , Fan Jiang. https://doi.org/10.48550/arXiv.2606.03700